{"id":7130,"date":"2020-11-28T17:45:28","date_gmt":"2020-11-28T17:45:28","guid":{"rendered":"https:\/\/laparisserie.com.br\/site\/?p=7130"},"modified":"2020-12-02T00:13:21","modified_gmt":"2020-12-02T00:13:21","slug":"para-valorizar-e-preciso-conhecer-e-reconhecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/laparisserie.com.br\/site\/index.php\/2020\/11\/28\/para-valorizar-e-preciso-conhecer-e-reconhecer\/","title":{"rendered":"Para valorizar \u00e9 preciso conhecer&#8230; e reconhecer&#8230;"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>* Texto publicado em fevereiro de 2020 na coluna A\u00c7\u00daCAR (Site territ\u00f3rios gastron\u00f4micos)<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Depois de algumas semanas sumida, estou de volta! Tirei o m\u00eas de janeiro para organizar o ano que entra, e refletir sobre os pr\u00f3ximos passos. Quem me acompanha pelas redes sociais j\u00e1 viu que entramos com novidades! Tem agenda de cursos, aulas ao vivo, eventos, e at\u00e9 roteiro de viagens pela confeitaria. E por aqui, continuarei a trazer assuntos que considero relevantes na \u00e1rea, tentando sempre levantar questionamentos e reflex\u00f5es, mas, tamb\u00e9m, momentos de leveza e afeto, que s\u00f3 um doce pode proporcionar. \ud83d\ude42<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 come\u00e7amos o ano com um assunto pol\u00eamico, e que tem muito ainda o que ser falado. Deu at\u00e9 \u201clive\u201d com direito a muita intera\u00e7\u00e3o e questionamento: uma discuss\u00e3o muito importante sobre o uso do tacho de cobre na do\u00e7aria mineira, sobre legisla\u00e7\u00f5es que n\u00e3o conversam com quem vive a realidade do assunto, proibi\u00e7\u00f5es sem fundamento, mitos que precisam ser esclarecidos. Tenho percebido que tudo passa, mais uma vez, pela educa\u00e7\u00e3o\/conhecimento, mas tamb\u00e9m por um fator muito importante: o reconhecimento. \u201cValoriza\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cidentidade\u201d, \u201ccultura\u201d s\u00e3o termos de peso e import\u00e2ncia, mas que, para mim, s\u00f3 fizeram sentido depois que entendi que tem a ver com o reconhecer valor no que \u00e9 nosso, e se reconhecer como parte disso. Como assim?<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 contei por aqui sobre minha trajet\u00f3ria com a confeitaria, minha forma\u00e7\u00e3o na Fran\u00e7a, e como vejo, hoje, que minha experi\u00eancia fora me aproximou muito dos objetivos que busco por aqui. J\u00e1 falei o quanto admiro a confeitaria francesa, al\u00e9m das t\u00e9cnicas, pelo que ela representa no seu pa\u00eds, como \u00e9 valorizada e admirada, e levada muito a s\u00e9rio por l\u00e1, e como eu gostaria de ver isso acontecendo por aqui tamb\u00e9m. Mas nem sempre pensei assim\u2026 Passei um tempo acreditando mesmo que o que vem de fora \u00e9 sempre melhor, o cl\u00e1ssico \u201ccomplexo de vira-lata\u201d. Mudar essa perspectiva n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, compreender nosso potencial e ver o quanto nossa hist\u00f3ria \u00e9 rica, \u00e9 um exerc\u00edcio constante de reconhecimento, de olhar pra dentro e se assumir como parte dessa identidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante minha estadia na Fran\u00e7a, tive a oportunidade de estudar ao lado de pessoas de v\u00e1rias partes do mundo, e isso foi, com certeza, uma das coisas mais incr\u00edveis dessa experi\u00eancia. Uma troca de valores inestim\u00e1vel que nos faz questionar muitas coisas, aprender sobre toler\u00e2ncia, respeito, autoconhecimento. Alguns desses colegas se tornaram grandes amigos e foram muito importantes na minha trajet\u00f3ria por l\u00e1. Equatorianos, norte americanos, colombianos, venezuelanos, argentinos, chineses, turcos, nigerianos, gregos, brasileiros de diversas regi\u00f5es, brit\u00e2nicos, dentre outras nacionalidades que dividiram as bancadas, salas de aulas, perrengues, viagens, baladas, e experi\u00eancias nesse pa\u00eds, que nos recebeu para um per\u00edodo de imers\u00e3o e estudos sobre sua pr\u00f3pria cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Um deles foi um colega grego, o Ilias, que, coincidentemente, tinha uma fascina\u00e7\u00e3o enorme pelo Brasil, e sonhava em conhecer nossas terras. Seu pai era marinheiro e viajou diversas vezes para c\u00e1, o que lhe rendeu belas hist\u00f3rias que contava aos filhos sobre nosso pa\u00eds, sempre de forma muito encantadora e afetuosa. Ele me contou que sonhava em conhecer mais sobre nossa cultura e poder provar da nossa culin\u00e1ria, que parecia aos olhos dele algo realmente incr\u00edvel! Como n\u00e3o podia deixar de ser, o orgulho mineiro entrou em cena e contei a ele das del\u00edcias da nossa culin\u00e1ria, nossa liga\u00e7\u00e3o com uma terra de montanhas e muita hist\u00f3ria, das influ\u00eancias e heran\u00e7as do colonialismo nos sabores, das comidas \u201ctradicionais\u201d, e muita coisa que nos permeia. Cheguei a lev\u00e1-lo, junto com outros colegas, a um restaurante brasileiro para provar alguns quitutes, e encomendei dos parentes que foram me visitar outras guloseimas para apresentar por l\u00e1 (doces, polpas de frutas t\u00edpicas, cacha\u00e7as\u2026), e fiz tamb\u00e9m algumas receitas afetivas, que todo brasileiro fora de casa por muito tempo precisa de vez em quando: p\u00e3o de queijo (adaptado, claro), canjica, bolo de cenoura com chocolate, e brigadeiro, para citar alguns.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda vez que falava da nossa comida enchia o peito de orgulho, e o Ilias sempre muito entusiasmado em provar de tudo que eu levava e em conhecer mais. Ele, por sua vez, tamb\u00e9m me trazia del\u00edcias da terra de S\u00f3crates e dos Deuses, fazendo desse interc\u00e2mbio algo realmente rico e sensacional!<\/p>\n\n\n\n<p>Foi ent\u00e3o que um dia comentei com ele sobre os preparativos do meu casamento (estava noiva na \u00e9poca), e das coisas que eu gostaria no dia. Falei que queria muito ter um banquete com \u201ccomidas mediterr\u00e2neas\u201d na festa (entre aspas mesmo, pois at\u00e9 ent\u00e3o reduzia-se a comida mediterr\u00e2nea a basicamente uma mesa de prosciuttos, queijos, p\u00e3es e massas. #vergonhasquepasseinavida), super na moda nos casamentos naquele momento. E me lembro de contar com entusiasmo essas ideias, enquanto as fei\u00e7\u00f5es dele ficavam cada vez mais s\u00e9rias e pensativas. Foi ent\u00e3o que ele me interrompeu, incomodado, e falou: \u201cNa minha terra, em dias de celebra\u00e7\u00e3o e importantes como um casamento, n\u00e3o se pensaria jamais servir algo diferente do que nossas comidas. Sem elas n\u00e3o tem sentido a festa, elas tem muito significado, s\u00e3o parte da celebra\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea me conta de tantas maravilhas das sua cultura, uma culin\u00e1ria t\u00e3o rica e com tanta tradi\u00e7\u00e3o, e quer levar comida estrangeira para o dia mais importante da sua vida? Eu n\u00e3o entendo&#8230;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a\u00ed que, \u201ccataploft\u201d! Fiquei sem fala, e senti como se tivesse levado um soco no est\u00f4mago! Foi um choque de realidade realmente forte. Na minha ignor\u00e2ncia, enchia a boca para contar da nossa cultura culin\u00e1ria, dos nossos sabores e ingredientes, mas, pelo jeito, n\u00e3o os reconhecia como parte de mim o suficiente, n\u00e3o lhes dava valor o suficiente para deix\u00e1-los serem parte de um dia especial da minha vida. Enchemos o peito para falar do que \u00e9 nosso l\u00e1 fora, mas aqui, n\u00e3o valorizamos, n\u00e3o fazemos quest\u00e3o de conhecer, entender, se orgulhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso me deixou realmente muito abalada e me fez rever v\u00e1rias posturas. A mudan\u00e7a dessas posturas n\u00e3o foi, nem \u00e9, imediata, at\u00e9 porque leva um tempo para perceber quais s\u00e3o, e como elas est\u00e3o enraizadas, e ent\u00e3o combat\u00ea-las. E elas surgem no dia a dia, sem a gente perceber. \u00c9, como eu disse, um exerc\u00edcio constante o reconhecer e o valorizar. S\u00e3o posturas como essas que fazem surgir legisla\u00e7\u00f5es sem sentido, que preferem proibir sem entender, sem ouvir, sem conhecer. S\u00e3o posturas como essas que transformam palavras de significados simples e claros, em adjetivos pejorativos. N\u00e3o reconhecemos, ou n\u00e3o nos reconhecemos\/assumimos como parte dessa identidade, uma vergonha velada que cai na desvaloriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse texto todo \u00e9 pra dizer que, sim, \u00e9 muito importante ter bandeiras como a valoriza\u00e7\u00e3o da confeitaria, da comida de raiz, dentre outros, mas que \u00e9 preciso entender que isso \u00e9 um movimento que deve vir de dentro pra fora, voltar a olhar de onde viemos, assumir e abra\u00e7ar nossa cultura. Entend\u00ea-la, conhec\u00ea-la, e trazer conosco para futuro, continuando a constru\u00e7\u00e3o da nossa identidade. Acredito que, antes do valorizar a confeitaria no Brasil, \u00e9 preciso reconhecer que ela \u00e9 parte da nossa identidade cultural, e penso que meu trabalho deve trilhar por a\u00ed. A valoriza\u00e7\u00e3o vir\u00e1 sem esfor\u00e7o se pensarmos assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Te convido a fazer esse exerc\u00edcio comigo, eu tamb\u00e9m estou aprendendo todos os dias, n\u00e3o \u00e9 simples, mas as descobertas s\u00e3o muito lindas. Com essa reflex\u00e3o, desejo um ano de muita inspira\u00e7\u00e3o, trabalho, e reconhecimento para todos n\u00f3s!<\/p>\n\n\n\n<p>Obs: Para quem ficou curioso: sim! O menu do casamento foi totalmente alterado, e incluiu pratos e ingredientes t\u00edpicos de todo o Brasil em um menu lindo e cheio de significado, elaborado pela maravilhosa Agnes Farkasvolgy do Bouquet Garni! Uma das melhores decis\u00f5es que j\u00e1 fiz!<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado foi incr\u00edvel, inesquec\u00edvel, delicioso, \u00fanico, e, at\u00e9 hoje, super elogiado!<\/p>\n\n\n\n<p>Efkaristo Ilias!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>* Texto publicado em fevereiro de 2020 na coluna A\u00c7\u00daCAR (Site territ\u00f3rios gastron\u00f4micos) Depois de algumas semanas sumida, estou de volta! Tirei o m\u00eas de janeiro para organizar o ano que entra, e refletir sobre os pr\u00f3ximos passos. Quem me acompanha pelas redes sociais j\u00e1 viu que entramos com novidades! 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